Publicado em Michely Coutinho, Na mídia

Como tem atuado o Judiciário em processos sobre violência de gênero?

Por Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo 19 Outubro, 2023

O Brasil segue sendo o quinto país mais violento contra as mulheres e o primeiro em relação à violência contra os LGBTQIA+. Segundo estimativa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), há ocorrência de 822 mil estupros por ano no Brasil, sabendo-se que quase 60% das vítimas são meninas de até 13 anos e a maioria dos algozes são conhecidos da vítima e as violências ocorrem dentro de casa.

Com tudo isso, chama a atenção a reportagem “Eu Disse ‘Não’”, de Camila Bransalise, do Universa, do UOL, que destaca a importância de denunciar a atuação de juízes e advogados em audiências sobre violência de gênero, principalmente em casos de acusações de estupro.

Importante, portanto, aprofundar o debate sobre a atuação do Poder Judiciário sobre esse tema em processos criminais e a importância de tratar as vítimas com todo respeito para que o julgamento possa ocorrer de acordo com a legislação; principalmente porque se acumulam casos de acontecimentos desse tipo nos tribunais brasileiros.

“Na reportagem de Universa, Camila aponta procedimentos misóginos com perguntas inaceitáveis sobre o procedimento da vítima em relação ao fato”, argumenta Celina Arêas, secretária da Mulher Trabalhadora da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB).

De acordo com a reportagem, os juízes absolveram um réu acusado de violência sexual por 12 mulheres. Eles “entenderam que não há estupro caso a vítima não mostre reação física ‘séria, efetiva’ e com ‘rebeldia’ — dizer não, portanto, é insuficiente”.

Para a sindicalista, esse tipo de ocorrência em audiências processuais “acaba por colocar a vítima num local de desconforto e humilhação” porque  “pode levar a mulher que busca na justiça os seus direitos e a reparação de um crime, a descrença no Judiciário e nas leis”.

Redes de apoio

Para que uma vítima de estupro não tenha mais que ouvir de um promotor de Justiça, coisas do tipo: “Tu fez eu e a juíza autorizar um aborto e agora tu te arrependeu assim? Tu podes pra abrir as pernas (…) pra um cara tu tem maturidade (….) e pra assumir uma criança tu não tem?”, dita por Theodoro Alexandre da Silva Silveira, no interior do Rio Grande do Sul, em 2016, quando uma adolescente de 14 anos acusava o pai por estupro, que foi comprovado, inclusive.

Michely Coutinho, secretária da Mulher da CTB-GO, aponta a necessidade de um intenso combate “ao machismo, à misoginia e à humilhação de vítimas no Judiciário” promovendo “a sensibilização e a capacitação de juízes e demais profissionais do sistema de Justiça”. Para ela, “é importante que as vítimas tenham acesso a redes de apoio, a exemplo de organizações de defesa dos direitos das mulheres, e denunciem qualquer conduta inadequada”.

Além disso, “a sociedade e outros agentes sociais, a exemplo da mídia, também desempenham um papel fundamental ao reivindicarem a igualdade de gênero e a justiça nos processos judiciais relacionados à violência sexual e doméstica”.

Culpabilização da vítima

Isso principalmente porque, na reportagem de Universa, as vítimas têm que responder se estavam vestidas de calcinha, entre outros impropérios. Débora Henrique, secretária da Mulher da CTB-RJ, afirma categoricamente que “o que vestimos não é consentimento ou convite explícito ou implícito para sexo” porque “não existe decote ou roupa curta que possa ser codificada como consentimento ao assédio sexual contra nós mulheres”.

Para Michely, “a ideia de que a roupa usada pela vítima justifica a violência é uma forma de culpabilização da vítima, prática relatada em diversos casos em que se deveria acolher a vítima, e não revitimizá-la”,  é evidente que “a roupa não é uma autorização para que a mulher seja violentada”, pois “todas as pessoas têm o direito elementar de se vestir sem medo de sofrer agressão”.

Ela lembra da exposição “A Culpa É Minha”, na Bélgica, com a exposição de roupas de vítimas de estupro, comprovando claramente que não é a roupa, mas a cultura do estupro que leva homens a se acharem no direito de invadir corpos de mulheres.

Caso Mariana Ferrer

Outro caso escabroso aconteceu em audiência, onde a blogueira Mariana Ferrer acusava André de Camargo Aranha de estupro, em Santa Catarina, em 2018, quando o advogado de defesa de Cláudio Gastão da Rosa Filho a humilhou com frases do tipo: “Peço a Deus que meu filho não encontre uma mulher como você” Ou “É seu ganha pão a desgraça dos outros. Manipular essa história de virgem”, sem que ninguém tomasse nenhuma providência.

O réu foi absolvido por “falta de provas” e prevaleceu a tese inócua de “estupro culposo”. O ocorrido resultou na Lei 14.245/2021, apelidada de Lei Mariana Ferrer. De acordo com Michely, que é advogada, “o artigo 400-A dessa lei estabelece a obrigação de todas as partes e sujeitos processuais zelarem pela integridade física e psicológica da vítima durante a audiência, proibindo manifestações que ofendam a dignidade dela”.

Já Débora ressalta a necessidade de se promover “um amplo debate em toda a sociedade para acabarmos com a cultura do estupro e prevalecer a cultura da paz, onde todas as pessoas possam andar livremente pelas ruas, sem medo  e com a roupa que quiserem”.

Para Michely, no caso específico da Justiça, é necessário “conscientizar os integrantes do Judiciário sobre os impactos da violência sexual e doméstica, e sobre a importância de respeitar a dignidade das vítimas, e ofertar capacitação permanente sobre como conduzir audiências de forma respeitosa e sem culpabilizar as vítimas”, além de “criar mecanismos para responsabilizar os integrantes do Judiciário que cometem atos de machismo e humilhação de vítimas”.

Em breve a segunda parte desta matéria com entrevista exclusiva com a juíza do Trabalho, Valdete Souto Severo.

Fonte: https://www.jornaltornado.pt/como-tem-atuado-o-judiciario-em-processos-sobre-violencia-de-genero-1/
https://radiopeaobrasil.com.br/como-tem-atuado-o-judiciario-em-processos-sobre-violencia-de-genero/

Publicado em Direitos Humanos & Terceiro Setor, Feminismo, Michely Coutinho, Na mídia, Opinião

Câmara aprova projetos essenciais para a vida das mulheres; agora a bola está com o Senado – CTB

https://ctb.org.br/mulher-trabalhadora/camara-aprova-projetos-essenciais-para-a-vida-das-mulheres-agora-a-bola-esta-com-o-senado/Publicado 04/05/2023

Por Marcos Aurélio Ruy

A Câmara dos Deputados aprovou nesta semana dois projetos enviados pelo Poder Executivo que são essenciais para a melhoria de vida das mulheres. Na terça-feira (2) foi aprovado o PL 1084/23, que estende a Bolsa-Atleta às gestantes e puérperas por 15 meses, ou seja, durante todo o período gestacional até os primeiros seis meses de vida do recém-nascido.

Nesta quinta-feira (4) foi aprovado o PL 1085/23, também enviado pelo governo Lula, que determina a igualdade salarial entre mulheres e homens em mesmas funções. E prevê multas para as empresas que não cumprirem a lei. A bola agora está com o Senado.

“Esses dois projetos são bandeiras do movimento feminista. Há tempos as atletas denunciavam a dificuldade em serem mães e continuarem em atividade e com o PL 1084, podem respirar mais aliviadas”, diz Celina Arêas, secretária da Mulher Trabalhadora da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB).

Sobre a igualdade salarial, Celina afirma que “desde sempre empunhamos essa bandeira no movimento sindical, principalmente porque a igualdade salarial está garantida pela Constituição Federal e pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT)”.

Segundo a sindicalista, “o diferencial desse novo projeto é a previsão de multas para as empresas que descumprirem a lei, garantindo esse nosso direito”. Para a juíza do Trabalho, Valdete Souto Severo “esses dois projetos trazem avanços importantes para a luta das mulheres por igualdade”.

Valdete faz apenas uma ressalva sobre o 8º parágrafo do artigo 1º do PL 1084/23, onde a concessão da Bolsa-Atleta fica condicionada à disponibilidade orçamentária. Para ela, “para o projeto representar um verdadeiro avanço, a disponibilidade orçamentária precisa estar garantida de antemão”. Ela espera a atenção devida a esse item pelos senadores e, principalmente pelo presidente Lula.


Atletas recebem com ânimo a aprovação do PL 1084/23 (Foto: Wagner Carmo)
“Esse projeto (PL 1084) faz justiça a todas as atletas brasileiras que necessitam da Bolsa-Atleta para seguirem suas carreiras esportivas”, assegura Carminha Soares, secretária da Mulher da CTB-PB. Assim como o PL 1085, “representa um grande avanço para a eterna luta por igualdade salarial entre os sexos”.

Vera Manica, secretária-adjunta da Mulher da CTB-PR, entende a aprovação pelos deputados federais desses dois projetos como uma importante vitória das mulheres. “A volta do Ministério das Mulheres por si só já mostra que o governo Lula está do nosso lado”, argumenta. Isso porque o PL 1084 “resolve um grave problema enfrentado pelas atletas porque dessa forma poderão conciliar a atividade esportiva com a maternidade” e o “PL da igualdade salarial pode assegurar independência econômica para as mulheres, fundamental para o combate às violências”.

São avanços importantes para a vida das mulheres, garante Michely Coutinho, secretária da Mulher da CTB-GO. “O PL 1084/23 é mais uma ação no avanço de garantia de direitos das mulheres gestantes, em específico, a proteção social e garantia de renda para mulheres atletas, com reconhecimento do esforço que elas dedicam à carreira esportiva”.

Ela liga esse projeto à recente inclusão da licença-maternidade no Currículo Lattes. “A legislação brasileira precisa seguir avançando na garantia de direitos da maternidade. Neste sentido, o projeto de lei que prevê multa para empresas que não possuem salários iguais entre homens e mulheres”.

Segundo Michely, essas medidas “seguem sendo necessárias, dentre outras medidas complementares, a exemplo das políticas de diversidade e inclusão nas organizações”. Lenir Fanton Piloneto, secretária-adjunta da Mulher Trabalhadora da CTB, lembra que as mulheres constituem 51,1% da população, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mas recebem 77,7% dos salários dos homens, mesmo sendo maioria nos cursos universitários. Além de que somente 37,4% dos cargos de chefia são exercidos por mulheres.

“A aprovação de projetos como esses fomentam o debate e a importância de insistirmos na luta por igualdade e respeito às mulheres trabalhadoras em todas as atividades”, garante.

Vera destaca a aprovação de uma resolução defendendo salário igual para mulheres e homens pela Conferência do Conselho Feminino da Organização Internacional do Trabalho (OIT) já em 1919. “Como se vê essa luta é bem antiga, o que ressalta a importância desse PL e de termos um presidente voltado para os interesses da classe trabalhadora”.

Enquanto Vívian Régia Bandeira da Silva, secretária-geral da CTB-AP, defende que “cabe ao Estado reconhecer e apoiar a necessidade das atletas em realizar seu sonho de ser mãe e permanecer cultivando seu sonho e desempenhando seu papel esportivo”.

Para ela, também “é notório no atual governo a preocupação em estimular uma maior participação das mulheres nos espaços de poder e o reconhecimento da sua capacidade em se destacar profissionalmente para conquistar salários pelo papel desempenhado com eficiência e competência diante do mesmo papel masculino, fato levado em mais alta conta pelo nosso presidente Lula”.

Vera destaca que essas “conquistas estão em processo de construção, e é necessário mobilizar as mulheres trabalhadoras, do campo e da cidade, que contam com todo o apoio da nossa central, a CTB”.

A importância do movimento de mulheres continuar firme e forte à frente das lutas por um país melhor para todas as pessoas. defende Celina “é que garantiram essas aprovações pelas deputadas e deputados federais. Agora devemos insistir para que senadoras e senadores não demorem em aprová-los”.

Publicado 04/05/2023

Por Marcos Aurélio Ruy

A Câmara dos Deputados aprovou nesta semana dois projetos enviados pelo Poder Executivo que são essenciais para a melhoria de vida das mulheres. Na terça-feira (2) foi aprovado o PL 1084/23, que estende a Bolsa-Atleta às gestantes e puérperas por 15 meses, ou seja, durante todo o período gestacional até os primeiros seis meses de vida do recém-nascido.

Nesta quinta-feira (4) foi aprovado o PL 1085/23, também enviado pelo governo Lula, que determina a igualdade salarial entre mulheres e homens em mesmas funções. E prevê multas para as empresas que não cumprirem a lei. A bola agora está com o Senado.

“Esses dois projetos são bandeiras do movimento feminista. Há tempos as atletas denunciavam a dificuldade em serem mães e continuarem em atividade e com o PL 1084, podem respirar mais aliviadas”, diz Celina Arêas, secretária da Mulher Trabalhadora da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB).

Sobre a igualdade salarial, Celina afirma que “desde sempre empunhamos essa bandeira no movimento sindical, principalmente porque a igualdade salarial está garantida pela Constituição Federal e pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT)”.

Segundo a sindicalista, “o diferencial desse novo projeto é a previsão de multas para as empresas que descumprirem a lei, garantindo esse nosso direito”. Para a juíza do Trabalho, Valdete Souto Severo “esses dois projetos trazem avanços importantes para a luta das mulheres por igualdade”.

Valdete faz apenas uma ressalva sobre o 8º parágrafo do artigo 1º do PL 1084/23, onde a concessão da Bolsa-Atleta fica condicionada à disponibilidade orçamentária. Para ela, “para o projeto representar um verdadeiro avanço, a disponibilidade orçamentária precisa estar garantida de antemão”. Ela espera a atenção devida a esse item pelos senadores e, principalmente pelo presidente Lula.


Atletas recebem com ânimo a aprovação do PL 1084/23 (Foto: Wagner Carmo)
“Esse projeto (PL 1084) faz justiça a todas as atletas brasileiras que necessitam da Bolsa-Atleta para seguirem suas carreiras esportivas”, assegura Carminha Soares, secretária da Mulher da CTB-PB. Assim como o PL 1085, “representa um grande avanço para a eterna luta por igualdade salarial entre os sexos”.

Vera Manica, secretária-adjunta da Mulher da CTB-PR, entende a aprovação pelos deputados federais desses dois projetos como uma importante vitória das mulheres. “A volta do Ministério das Mulheres por si só já mostra que o governo Lula está do nosso lado”, argumenta. Isso porque o PL 1084 “resolve um grave problema enfrentado pelas atletas porque dessa forma poderão conciliar a atividade esportiva com a maternidade” e o “PL da igualdade salarial pode assegurar independência econômica para as mulheres, fundamental para o combate às violências”.

São avanços importantes para a vida das mulheres, garante Michely Coutinho, secretária da Mulher da CTB-GO. “O PL 1084/23 é mais uma ação no avanço de garantia de direitos das mulheres gestantes, em específico, a proteção social e garantia de renda para mulheres atletas, com reconhecimento do esforço que elas dedicam à carreira esportiva”.

Ela liga esse projeto à recente inclusão da licença-maternidade no Currículo Lattes. “A legislação brasileira precisa seguir avançando na garantia de direitos da maternidade. Neste sentido, o projeto de lei que prevê multa para empresas que não possuem salários iguais entre homens e mulheres”.

Segundo Michely, essas medidas “seguem sendo necessárias, dentre outras medidas complementares, a exemplo das políticas de diversidade e inclusão nas organizações”. Lenir Fanton Piloneto, secretária-adjunta da Mulher Trabalhadora da CTB, lembra que as mulheres constituem 51,1% da população, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mas recebem 77,7% dos salários dos homens, mesmo sendo maioria nos cursos universitários. Além de que somente 37,4% dos cargos de chefia são exercidos por mulheres.

“A aprovação de projetos como esses fomentam o debate e a importância de insistirmos na luta por igualdade e respeito às mulheres trabalhadoras em todas as atividades”, garante.

Vera destaca a aprovação de uma resolução defendendo salário igual para mulheres e homens pela Conferência do Conselho Feminino da Organização Internacional do Trabalho (OIT) já em 1919. “Como se vê essa luta é bem antiga, o que ressalta a importância desse PL e de termos um presidente voltado para os interesses da classe trabalhadora”.

Enquanto Vívian Régia Bandeira da Silva, secretária-geral da CTB-AP, defende que “cabe ao Estado reconhecer e apoiar a necessidade das atletas em realizar seu sonho de ser mãe e permanecer cultivando seu sonho e desempenhando seu papel esportivo”.

Para ela, também “é notório no atual governo a preocupação em estimular uma maior participação das mulheres nos espaços de poder e o reconhecimento da sua capacidade em se destacar profissionalmente para conquistar salários pelo papel desempenhado com eficiência e competência diante do mesmo papel masculino, fato levado em mais alta conta pelo nosso presidente Lula”.

Vera destaca que essas “conquistas estão em processo de construção, e é necessário mobilizar as mulheres trabalhadoras, do campo e da cidade, que contam com todo o apoio da nossa central, a CTB”.

A importância do movimento de mulheres continuar firme e forte à frente das lutas por um país melhor para todas as pessoas. defende Celina “é que garantiram essas aprovações pelas deputadas e deputados federais. Agora devemos insistir para que senadoras e senadores não demorem em aprová-los”.

Outras referências: https://radiopeaobrasil.com.br/colunistas/camara-aprova-projetos-essenciais-para-a-vida-das-mulheres-agora-a-bola-esta-com-o-senado/

Publicado em Michely Coutinho, Na mídia

Simone Tebet mostra força, enquanto Bolsonaro se deixa levar pela misoginia

Ciro foi o segundo melhor e Lula não perdeu pontos, mas também não ganhou; análises são do cientista político Lehninger Mota e da advogada Michely Coutinho, ouvidos pelo Diário do Estado

Em 29/08/2022 | 15:30

A pesquisa Datafolha realizada com eleitores indecisos mostrou que o presidente Jair Bolsonaro (PL) foi quem se saiu pior no debate realizado na noite de domingo, 28, organizado pela Folha, UOL e tvs Bandeirantes e Cultura. Já quem se saiu melhor, segundo a análise dos eleitores ouvidos na pesquisa, foi Simone Tebet, do MDB. Lula foi apontado por 21% dos entrevistados como o segundo pior da noite (Bolsonaro ficou com 51%).

Ouvido pelo Diário do Estado (DE), o cientista político Lehninger Mota concorda que Simone foi a candidata à presidência da República que se saiu melhor, seguida de Ciro Gomes (PDT). “O debate de ontem [domingo, 28] teve algumas nuances muito importantes. A primeira foi quem venceu o debate. Eu diria que quem se saiu melhor foi Simone Tebet e o Ciro Gomes, que foram bem categóricos nas suas afirmações. Falaram com firmeza e com precisão, sabendo atacar no momento certo e falar de propostas em outros momentos”.

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Ele considerou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) muito na retaguarda, se esquivando bastante, não sendo muito incisivo, não atacando muito e sendo vem perseguido, apanhando de ambos os lados, já que está na frente das pesquisas. Bolsonaro, por sua vez, confirmou sua dificuldade com o público feminino ao atacar a jornalista Vera Magalhães.

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“Este é um público que ele precisa conquistar, mas cometeu um erro, um pecado em termos de estratégia de campanha. No Jornal Nacional ele conseguiu ter calma, acertou o tom, mas ontem perdeu as estribeiras e agrediu com palavras a jornalista Vera Magalhães, causando grande comoção em mulheres, artistas, em todo mundo”.

Para Lehninger Mota, os debates seguirão a mesma linha, ou seja, vão tentar desconstruir a figura de Lula, que está à frente das pesquisas, e salientar os pontos negativos do governo Bolsonaro. “Vão tentar desconstruir os principais. Lula não ganhou pontos, mas não perdeu. Bolsonaro perdeu pontos. Ciro foi bem. Simone foi bem. A candidata Soraya Thronicke (União Brasil) teve seus momentos para deixar de ser uma mera desconhecida. Teve seus momentos, mas não chegou nem perto de Simone”, avaliou.

Apesar disso, ele acredita que debates eleitorais são acompanhados por grupos específicos de eleitores, então, possuem um efeito limitado. “É preciso ressaltar que os indecisos usam os debates eleitorais para decidir seus votos e para reforçar as preferências de quem já as têm”.

Temas fundamentais

Para a advogada e educadora Michely Coutinho, o debate da Band oportunizou aos eleitores um retrato assertivo sobre as propostas (ou falta delas), os valores e a visão de país de cada candidato e candidata. “Grandes temas fundamentais do Executivo Federal foram debatidos, alguns na profundidade possível que o tempo permite, incluindo a separação entre Estado e religião, e a tolerância e laicidade”.

Advogada Michely Coutinho diz que debate permitiu retrato assertivo sobre as propostas de cada candidato (Foto: Arquivo pessoal)

Para ela, embora estejamos vivendo uma política polarizada nos últimos anos, ainda há muitos eleitores indecisos e, se o debate ainda não determinou a escolha, contribuiu para demonstrar em quem não votar. “Acredito que a cada debate, o Brasil ganha na construção pública sobre seus rumos pós-pandemia, que é a grande preocupação do povo”.

Para ela, Lula segue demonstrando a segurança e preparo de quem já liderou políticas públicas estruturais e fundantes para o país. “Ciro apresentou a perícia que possui sobre temas e detalhes específicos, mas não esconde seu ressentimento – o que lamento, pois acredito no espírito público dele”, diz.

Michely continua. “Simone Tebet se projeta como um grande nome do cenário nacional, e sinto que tem sido destaque das eleições, em vários relatos por onde tenho transitado, e a pesquisa Datafolha sobre o debate demonstra isso. E lamento mais uma vez que o atual ocupante do mais alto cargo da República transparece despreparo, deboche e desrespeito, que desconhece o país, marcos civilizatórios elementares e o papel das instituições para o desenvolvimento de uma sociedade e para a democracia”, afirma.

Michely Coutinho destada dois pontos de observação em relação ao debate de domingo à noite. O primeiro é que a política é a vida pública e o Estado por natureza. “Eu questiono como há candidatos à presidência da República que quase negam o Estado, como o Felipe do Partido Novo? Outro é a participação das mulheres no debate (e o desprezo sempre machista de Bolsonaro a elas)”. A advogada e educadora lembra que o golpe de 2016 à presidenta Dilma foi também misógino, e acompanhar o excelente preparo da Simone e da Soraya foi um contributo à participação das mulheres na política.

Fonte: https://diariodoestadogo.com.br/coluna/simone-tebet-mostra-forca-enquanto-bolsonaro-se-deixa-levar-pela-misoginia/