Publicado em Direito do Trabalho, Produção, Terceirização, Trabalho

[ TRABALHO/TERCEIRIZAÇÃO & PENAL ]

A terceirização segue demonstrando seu papel de apodrecimento das relações e estruturas sociais.

Um agente penitenciário, além do concurso, participa de curso de formação de 3 a 6 meses. Um terceirizado apenas uma semana de palestras. 80% dos agentes penitenciários do Maranhão são terceirizados. Mais uma peça, esta trabalhista, do quebra-cabeça trágico do sistema penal brasileiro. Até quando?

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Revistas científicas ou túmulos do saber?

Revistas científicas ou túmulos do saber?

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Por trás do suposto rigor das publicações “de excelência” pode estar o epistemicídio — a tendência da Academia a sepultar pensamentos dissidentes. Mas há alternativas

Por Alex Martins Moraes | 08/01/2014

O que a entrega do prêmio Nobel de medicina 2013 e a divulgação dos resultados da avaliação trienal do sistema de pós-graduação no Brasil têm em comum? Além de ambos os eventos terem ocorrido na primeira quinzena de dezembro, eles também convergem, por razões distintas, em outro sentido: representam uma boa oportunidade para repensar e criticar as modalidades vigentes de produção do conhecimento em nosso país.

O biólogo molecular estadunidense Randy Wayne Schekman, que recebeu o prêmio Nobel junto com seus pares James Rothman e Thomas Südhof, aproveitou a visibilidade pública proporcionada pela premiação para instaurar uma forte polêmica com algumas das publicações científicas mais importantes no campo das ciências biológicas. Em coluna publicada no The Guardian um dia antes da cerimônia do Nobel (versão em espanhol publicada pelo El País), Randy Schekman acusou as revistasNatureScience e Cell de prestarem um verdadeiro desserviço à ciência, difundindo práticas propriamente especulativas para garantirem seus mercados editoriais. Entre estas práticas, Schekman menciona a redução artificial da quantidade de artigos aceitos para publicação, a adoção de critérios sensacionalistas na seleção das colaborações e um total descompromisso com a qualificação do debate científico. Schekman conclui sua intervenção com o seguinte chamado à comunidade científica: “Da mesma forma que Wall Street precisa terminar com o domínio da cultura dos bônus, que fomenta certos riscos que são racionais para os indivíduos, mas prejudiciais para o sistema financeiro, a ciência deve se libertar da tirania das revistas de luxo. A consequência dessa escolha será uma pesquisa que sirva melhor aos interesses da ciência e da sociedade”.

Aparentemente refratária a esse tipo de crítica – que, aliás, vem se tornando cada vez mais comum em todas as áreas do conhecimento–, a CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) confere um peso decisivo às publicações em revistas de alto impacto no momento de avaliar o desempenho e a qualidade dos cursos de pós-graduação brasileiros. Para a antropologia, área da qual provenho, a avaliação da CAPES atribui um peso de 40% sobre a nota final à produção intelectual dos docentes de cada instituição. Na prática isto significa que, para atingir os conceitos máximos de avaliação (6 e 7), um determinado programa de pós-graduação deve esperar que todos os seus professores de mestrado e doutorado efetuem – para citar diretamente o roteiro de avaliação da CAPES – “a publicação de resultados de pesquisa, sob a forma de artigos em periódicos científicos, livros e capítulos de livros qualificados, com destacada proporção e média por docente nos estratos A1, A2 e B1 do Qualis Periódicos”. Levando em conta a quantidade de artigos publicados pelos docentes permanentes dos programas de pós-graduação em antropologia mais produtivos no triênio 2010-2012, o “ideal” seria, em média, cerca de duas publicações por ano por docente em revistas indexadas – isto sem mencionar as demais publicações, como livros, capítulos de livros, audiovisuais, relatórios técnicos, etc.

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A avaliação da CAPES na área antropologia/arqueologia não leva em conta o fator de impacto das publicações, dado que a maioria das revistas de ciências humanas não dispõe dos meios para quantificá-lo. Neste caso, a classificação dos periódicos nos estratos A1 e A2 exige, entre outras coisas, que eles figurem em indexadores internacionais. Já o estrato B1 requer que figurem em pelo menos dois indexadores, sejam eles internacionais ou não. Outras áreas, como a medicina, adotam diretamente uma classificação elaborada com base na mediana do fator de impacto das revistas, obtidos junto ao Journal Citation Reports (JCR) e calculados anualmente pelo ISI Web of Knowledge. Isto implica o condicionamento da avaliação da produção científica às dinâmicas do mercado editorial internacional, com todas as consequências aventadas por Randy Schekman em seu artigo no The Guardian. Pior ainda, ao aplicar classificações desta ordem, a CAPES enfraquece o próprio parque editorial nacional e favorece uma forma questionável de internacionalizar a produção científica, colocando as revistas mantidas por universidades públicas e entidades de classe em detrimento de periódicos estrangeiros, financiados, em sua maioria, pela iniciativa privada e aferrados aos cânones da propriedade intelectual.

No caso das ciências sociais e humanas, o produtivismo amparado pelas avaliações da CAPES se materializa numa miríade de efeitos preocupantes, alguns deles inesperados. Não me refiro apenas à precarização do trabalho de professores e estudantes ou à perda de organicidade da produção intelectual decorrente da ênfase obsessiva na escrita de artigos e de apresentações para congressos. Talvez o aspecto mais assustador e menos criticado de uma avaliação da pós-graduação inspirada pela ideologia produtivista seja que ela ampara o epistemicídio. O epistemicídio – noção desenvolvida, entre outros, por Boaventura de Sousa Santos – consiste na eliminação ou inferiorização ativa de algumas formas de conhecimento em favor de outras, consideradas mais desejáveis no marco de uma dada estratégia de poder. Por exemplo, a anulação de certos saberes locais, sua folclorização ou deslegitimação pública foi e é uma modalidade de epistemicídio aplicada sobre diversas populações ao longo das experiências coloniais na América, Áfria e Ásia. O produtivismo está a serviço do epistemicídio porque bloqueia ou dificulta seriamente e emergência de outras formas de construção e enunciação do conhecimento em um momento de relativa democratização das universidades públicas brasileiras. Em poucas palavras, o produtivismo compromete a diversidade das formas de fazer ciência e a própria criatividade humana no exato momento em que se converte em critério valorativo hegemônico para a distribuição dos recursos necessários à produção de conhecimento. Ao erigir-se como critério chave de avaliação da relevância da produção intelectual, ele impõe sistemas de hierarquização que só fazem reiterar privilégios epistêmicos de longa data e comutá-los, logicamente, em privilégios político-institucionais. Só as modalidades mais conservadoras e pouco imaginativas de fazer ciência se adaptam, sem grandes problemas, aos atuais imperativos de quantificação. Já os estudos guiados pela co-investigação prolongada e participativa, os amplos panoramas exploratórios, as práticas colaborativas e situadas de escrita científica, etc. não conseguem sobreviver a esses imperativos.

As ciências sociais e humanas hegemônicas, legitimadas pelo produtivismo, marginalizam – ou produzem como inexistentes – outras práticas de produção intelectual; elas impõem seu universalismo abstrato ao pluralismo real dos discursos e das práxis intelectuais vigentes na universidade e fora dela. As instituições encarregadas de produzir conhecimento humanístico manejam orçamentos que, sem serem os mais robustos do sistema universitário brasileiro, não podem, ainda assim, considerar-se insignificantes. Trata-se de orçamentos conformados com dinheiro público acumulado através da cobrança de impostos majoritariamente regressivos a populações empobrecidas. Estes recursos têm sido aplicados, frequentemente, no estímulo de uma dinâmica universitária tendente a afastar estudantes e professores da problematização dos dilemas reais suscitados pela vida democrática em nosso país. Na prática, os chamados “problemas de investigação” acabam sendo inventados nos corredores da academia – ou importados dos debates prestigiosos e “de ponta” do norte global – para serem “resolvidos” no “lado de fora empírico”, com as “pessoas comuns” e depois convertidos em digressões que atendem apenas à agenda editorial vigente no mercado das publicações acadêmicas. Como se não bastasse, o dinheiro público destinado à formação de jovens pesquisadores no exterior é por vezes “investido” na perpetuação da subalternidade epistêmica das academias do sul global mediante editais que reiteram regimes de legitimidade científica diretamente coloniais.

Com a hegemonia da quantificação na elaboração dos sistemas de avaliação científica, cada vez menos a universidade poderá ser concebida como espaço de estímulo ao florescimento de “ciências sociais de outra forma”, baseadas no sentido de responsabilidade e colaboração em pesquisa, no cultivo de vínculos duradouros e qualificados com comunidades e sujeitos e na articulação entre problemáticas investigativas e dilemas socialmente compartilhados. Nossos prestigiosos programas de pós-graduação mais se assemelham organismos autistas, imersos em transe profundo, alheios a qualquer preocupação com a importância social do conhecimento científico. O que parece dinamizar a produção de conhecimento é a própria vontade de produzir racionalizada e eficientemente. Grosso modo: produção pela produção. Eis o círculo virtuoso (ou seria círculo vicioso?) do saber.

O que fazer num cenário em que a quase totalidade da produção de conhecimento promovida pelas ciências sociais e humanas encontra-se submetida a um estandarte geral de avaliação caracterizado pela (in)determinação quantitativa de toda a qualidade? Michael Eisen, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, que reagiu positivamente às criticas levantadas por Randy Schekman nas vésperas da entrega do Nobel, sugere a criação de sistemas alternativos de legitimação das práticas intelectuais. Para ele, todos os cientistas deveriam “atacar o uso das publicações para avaliar os pesquisadores, fazendo-o sempre que possível quando contratarem cientistas para o seu próprio laboratório ou departamento, quando revisarem as solicitações de financiamento ou julgarem os candidatos para uma vaga” (ver matériano El País:). Mais próximos de nós, os estudantes de mestrado em Antropologia Social da UFRGS, que paralisaram suas atividades acadêmicas na primavera de 2011 para questionar o produtivismo e as genealogias institucionais estabelecidas também oferecem uma alternativa: “paremos para pensar”. Esta, que foi a consigna da sua greve, nos alenta com a perspectiva de que a desestabilização da engrenagem produtivista é possível através da conformação de uma ética e de uma prática intelectual alternativa. Ao comentar a greve dos estudantes de Porto Alegre, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos concluiu o seguinte: “O vosso movimento (…) é parte dessa sociologia das emergências, porque é gente que está em busca de uma renovação epistemológica, política e o faz entre si, em pequenos grupos. Certamente os meios de comunicação não noticiaram, certamente não foi útil para o currículo deles ou para o programa de estudos deles, mas estão a emergir outras realidades” (entrevistacompleta na Tinta Crítica).

Talvez estas práticas “dissidentes” sejam um caminho para explorar novas lealdades e alianças políticas que conduzam a vias alternativas de legitimação da produção intelectual. O desafio, portanto, é erigir espaços profissionais dignos e reconhecidos mais além das aparelhagens institucionais produtivistas, de forma a superar as tentativas de epistemicídio e abrir passagem à proliferação de práticas intelectuais indisciplinadas, ecumênicas e participativas. Assumindo tal postura, corremos o risco de perdermos, num primeiro momento, o aval dos números, dos mercados editoriais e da tecnocracia, mas ganhamos um valioso terreno para construir objetividade e provar a validade dos nossos postulados: a práxis humana. Neste terreno pode vicejar uma ciência sucessora, amparada em novas redes de diálogo em política; uma ciência aberta a programas de investigação nos quais a verdade reside, parafraseando novamente a Boaventura de Sousa Santos, naquele conhecimento “que nos guia conscientemente e com êxito na passagem de um estado de realidade para outro estado de realidade”.

A tarefa parece hercúlea e certamente nem todos os pesquisadores estarão interessados em aceitá-la. Uma coisa, no entanto, é certa: ao desenvolver investigações, emitir laudos de demarcação de terras indígenas, frequentar eventos acadêmicos, escrever textos, produzir imagens, enunciar discursos políticos, etc. os cientistas sociais incorporam e colocam em ato suas disciplinas. E é por esta mesma via que também estão em condições de colocá-las em questão, disputando seus efeitos e funções. Nós podemos, portanto, atuar no registro da reprodução, abastecendo o aparelho disciplinar herdado, ou podemos bloquear a atualização de certas dinâmicas produtivas, exercendo uma reflexão crítica e pragmática a respeito das ferramentas político-institucionais disponíveis à ação transformadora.

Fonte: http://outraspalavras.net/destaques/revistas-cientificas-ou-tumulos-do-saber/

Publicado em Cinema, Sexualidade e LGBTT

Heteronormatividade e representação em Azul é a cor mais quente

Heteronormatividade e representação em Azul é a cor mais quente (2013)
Por Marcelo Rodrigues Souza Ribeiro, no dia 2 de janeiro de 2014

O que é heteronormatividade e o que isso tem a ver com Azul é a cor mais quente, de Abdellatif Kechiche?

Heteronormatividade é um conceito da teoria queer e do pensamento feminista e faz parte do debate intelectual e político contemporâneo sobre sexo, gênero e sexualidade. O termo designa a constituição da heterossexualidade como norma de comportamento, que se verifica em diversos contextos sociais. A heteronormatividade – ou heterossexualidade normativa, ou heterossexualidade compulsória – complementa a convenção da hierarquia de gênero, que privilegia o masculino sobre o feminino, com a interdição da homossexualidade como parte de formas de vida singulares, que produzem sentidos e efeitos não contidos nos horizontes imaginativos da heterossexualidade normativa.

A eficácia social e simbólica da heteronormatividade é perceptível na dificuldade de se pensar em relacionamentos homossexuais sem enquadrar as pessoas envolvidas em categorias características de relacionamentos heterossexuais. Essa dificuldade se manifesta, particularmente, nas recorrentes (e em geral frustradas) tentativas de identificação, na relação, de um pólo ativo e de um pólo passivo, de uma parte que desempenha as funções simbólicas identificadas com a noção de “homem” e de outra que desempenha as funções simbólicas associadas à noção de “mulher”. De fato, não se trata de uma dificuldade restrita à forma como sujeitos heterossexuais imaginam as relações homossexuais: é frequente que, entre as próprias pessoas envolvidas nesse tipo de relação, exista a demanda (muitas vezes impensada ou inconsciente) de que as funções simbólicas sejam repartidas como se supõe que deve acontecer num relacionamento heterossexual.

Se a heteronormatividade constitui nossos horizontes imaginativos, parte fundamental da luta contra a violência homofóbica reside na busca de desconstrução do imaginário heteronormativo, isto é, do conjunto de ideias pressupostas como se fossem formas naturais de construção de relacionamentos amorosos, entre quaisquer pessoas, como quer que se definam suas identidades. Quando Julie Maroh escreveu e desenhou o romance gráfico Le bleu est une couleur chaude, um de seus interesses era o de “banalizar a homossexualidade” e de, consequentemente, “chamar a atenção” de quem não duvida dos próprios preconceitos, de quem tem ideias falsas e de quem detesta homossexuais. Por meio da banalização da homossexualidade, o imaginário heteronormativo e os preconceitos, ideias falsas e sentimentos de ódio que o acompanham podem ser colocados em questão.

Azul é a cor mais quente (título original: La vie d’Adèle), a adaptação cinematográfica do romance gráfico de Maroh dirigida por Abdellatif Kechiche, pode ser considerado um prolongamento do esforço de banalização da homossexualidade que a artista francesa reivindica para si, ao pretender contar uma história de amor, como ela mesma reconhece: “Foi isso [a intenção de contar uma história de amor] que interessou Kechiche. Nenhum de nós tinha uma intenção militante.” Ao contarem histórias de amor entre mulheres como histórias de amor quaisquer, Maroh e Kechiche reconhecem o contexto de tensão psicológica, social e cultural que envolve a homossexualidade (como mostra, no caso do filme, a sequência da agressão de Adèle pelas colegas da escola, depois de a verem com Emma no dia anterior) e, ao mesmo tempo, procuram evidenciar seus aspectos banais, cotidianos (no que consiste a maior parte do filme, a meu ver).

Em La vie d’Adèle, a busca de representação do cotidiano de um relacionamento lésbico como um relacionamento qualquer se desdobra na encenação do sexo entre Adèle e Emma, assim como de sua convivência, com densidade de detalhes. A representação de uma história de amor entre mulheres talvez consiga perturbar, parcialmente, por si só, o imaginário heteronormativo. Entretanto, a forma de representação do relacionamento (e, particularmente, do sexo) entre as protagonistas do filme pode ser questionada (e o foi, como mostrarei a seguir) como parte do imaginário heteronormativo, em vez de uma perturbação de suas coordenadas. É por isso que Azul é a cor mais quente está atravessado pela questão da heteronormatividade, que evidencia a política da representação que constitui as imagens do filme.

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Principais críticas ao filme
Entre as diversas críticas dirigidas à forma de representação do relacionamento lésbico, em particular do sexo, encontra-se a da própria Julie Maroh, que escreveu: “Me parece claro que foi isso que faltou na tela: lésbicas”. Ela argumenta que, “com exceção de algumas passagens”, o filme encena o “sexo dito lésbico” de forma semelhante a certos filmes pornográficos destinados a homens heterossexuais, em que a encenação do sexo entre duas mulheres é subordinada ao prazer do espectador. Ela descreve as cenas de sexo como

uma ostentação brutal e cirúrgica, demonstrativa e fria do sexo dito lésbico, que parece com o pornô, e que me deixou muito desconfortável. Sobretudo quando, no meio de uma sala de cinema, todo mundo cai na gargalhada. Os/as heteronormativos/as, porque eles/elas não se identificam e acham a cena ridícula. Os homos e outras transidentidades, porque não é credível e porque eles/elas acham igualmente a cena ridícula. E, em meio aos únicos que não se ouve rir, há os eventuais caras que estão ocupados demais com a excitação diante da encarnação de um de seus fantasmas.

A situação que Maroh descreve na sala de cinema pode ser confirmada, com frequência, por qualquer espectador do filme. Os risos que acompanham as cenas de sexo pode se tornar uma fonte de estranhamento maior do que as próprias cenas, sobretudo se consideramos sua polissemia irredutível. Como sempre, é difícil interpretar os sentidos do riso, ou de sua ausência quando os outros riem. Seja como for, para Maroh, o estranhamento do riso é a evidência de um desconforto, que ela reconhece sentir “como lésbica”.

A comparação com o pornô – que reaparece em vários comentários sobre o filme de Kechiche – parece condensar os problemas de aspectos formais significativos de Azul é a cor mais quente, como o trabalho de encenação e de enquadramento. Ao mesmo tempo, a comparação indica um modo de compreensão do que está em jogo na produção do filme, em termos de relações de gênero, de trabalho e, em suma, de poder.

A importância dos close-ups no trabalho de encenação e de enquadramento do filme está associada ao argumento de Marie-Hélène Bourcier (na revista radiofônica queer Bang Bang, da Bélgica), que afirma que a câmera de Kechiche é como a câmera dos pornôs: uma “câmera-pau”, cujo dispositivo se destina à produção de prazer visual e sexual para o espectador homem heterossexual pressuposto. Assim como os close-ups proliferam em torno dos corpos das mulheres, em filmes pornô, para satisfazer o voyeurismo do espectador, os close-ups de Azul é a cor mais quente corresponderiam ao voyeurismo de Kechiche, que se concentraria, sobretudo, sobre a bunda e sobre a boca de Adèle Exarchopoulos, embora se projete, igualmente, sobre os corpos dela e de Léa Seydoux.

Efetivamente, a relação entre o diretor e as duas atrizes tornou-se objeto de polêmica, particularmente depois que, em diferentes entrevistas, Seydoux e, em menor medida, Exarchopoulos comentaram as dificuldades envolvidas nas filmagens, além de afirmarem que não pretendem trabalhar novamente com Kechiche. As exigências do diretor (que repetiu a filmagem de alguns planos até a exaustão, como no caso da sequência do primeiro encontro, que demandou mais de 100 tomadas e dura apenas cerca de 30 segundos) e o desempenho das atrizes (que, para Kechiche, motivou com frequência a repetição das tomadas) resultaram no prolongamento da produção dos 2 meses e meio previstos inicialmente para 5 meses e meio. (As condições de trabalho de toda a equipe do longa foram objeto de denúncia do sindicato competente, na França.)

A polêmica decorrente das críticas da equipe técnica e das atrizes ao trabalho de produção funciona como um impulso para a divulgação do filme, como uma jogada de marketing (não planejada, ao que tudo indica), mas também estimula a discussão de questões importantes que atravessam a obra, mas ultrapassam-na. Além de lembrar, muito concretamente, os limites do cinema de autor, uma vez que torna visível o conjunto heterogêneo de trabalhadores que se esconde na assinatura autoral de Abdellatif Kechich, a polêmica (especificamente no que concerne as relações entre o diretor e as atrizes) confere outro sentido à comparação da obra com filmes pornô, pois sugere que, se a pornografia, ao menos em suas formas dominantes, pode ser considerada uma modalidade da exploração do corpo feminino, Azul é a cor mais quente deve ser reconhecido como uma versão dessa modalidade particular de exploração, sobretudo por suas cenas de sexo.

Enquanto Julie Maroh nota a polissemia do riso dos espectadores diante das cenas de sexo, Marie-Hélène Bourcier comenta os sentidos da “câmera-pau” que atribui ao lugar de enunciação orquestrado pelo diretor. Entre os espectadores e o diretor, se Azul é a cor mais quente deve ser interpretado com base em sua comparação com a pornografia dominante, a narrativa do filme não encontra seu desfecho no plano final, em que Adèle caminha para longe da câmera.

Em diversos filmes pornográficos, o sexo entre mulheres é uma função do prazer visual e sexual dos homens. Pode ser que se trate apenas da preparação para a entrada em cena de um ou mais homens, como se o “verdadeiro” sexo se realizasse na penetração heterossexual. Pode ser que, sem a entrada em cena de homens, o desfecho do sexo entre as mulheres ocorra, ainda assim, sob a figura do homem, fora do filme, como espectador pressuposto, ao qual a encenação do sexo é destinada. Em todo caso, há uma redução do sexo entre mulheres à fantasia masculina, da qual o prazer feminino permanece excluído, na qual ele é inimaginável, a não ser como forma de dar mais prazer ao homem (os gemidos calculados, o rosto da mulher que olha, ostensivamente, para a câmera etc.).

Se esse tipo de filme pornográfico, que envolve o sexo entre mulheres e se destina ao prazer do homem, encontra seu desfecho com a entrada em cena da figura masculina, dentro ou fora da obra, a comparação entre Azul é a cor mais quente e a pornografia conduz ao reconhecimento do desfecho do filme bem longe de seus planos, nas imagens de Kechiche, Seydoux e Exarchopoulos, juntos, em festivais e outros contextos, difundidas pela mídia de entretenimento em geral. Nas palavras de Adriana:

Nessas imagens podemos contemplar a presença heterossexista de Kechiche, sempre disposto […] entre as duas atrizes, como se ele fosse aquele ator que surge ao final do pornô lésbico para trazer um pouco de sexo real [após] aqueles longos minutos de “preliminares” entre elas. Em La Vie D’Adèle, o que mais me incomoda é isso: não consigo assistir apenas a um filme lésbico, ou a uma cena de sexo lésbica. A presença de Kechiche é tão forte em seus planos fechados nos glúteos e na boca aberta de Exarchopoulos que, por vezes, o que temos ali é um belo de um ménage à trois ente Seydoux, Kechiche e Exarchopoulos.

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Principais argumentos em defesa do filme
O cerne dos argumentos em defesa de Azul é a cor mais quente consiste na observação de que se trata de uma história de amor. É isso que afirma, antes de tudo, o próprio Abdellatif Kechiche. Julie Maroh reconhece, aliás, que esse é o interesse do diretor, assim como era o dela ao criar o romance gráfico. Como uma história de amor, o filme ultrapassa as cenas de sexo, que participam da narrativa apenas na medida em que evidenciam a intensidade emocional da relação entre Adèle e Emma. Nesse sentido, em primeiro lugar, costuma-se observar que as cenas de sexo duram apenas alguns minutos, dentro de um longa de quase 3 horas. Além disso, os close-ups constituem um recurso estilístico e expressivo recorrente durante toda a obra, o que não permitiria sua identificação ao close-up pornográfico da “câmera-pau”.

A defesa do filme de Kechiche contra as críticas que assumem o lugar de enunciação lésbico e/ou interrogam a heteronormatividade que orientaria a obra recusa, repetidamente, a interpretação da narrativa como uma história de amor lésbica. Essa recusa está associada ao não reconhecimento do problema da representação, no filme, tal como apontado de forma radical pelas críticas que tentei identificar acima. Assim, ao se enfatizar que se trata de uma história de amo qualquer, cuja representação não envolveria problemas relacionados à identidade de gênero e da sexualidade das protagonistas, torna-se possível atribuir à narrativa de Azul é a cor mais quente a evidência da universalidade. É o que argumenta, por exemplo, Pablo Villaça, que escreve, no início e no final de sua crítica, respectivamente:

enxergar o filme como um “romance lésbico” é incorrer no erro dos homofóbicos, que tendem a enxergar gays e lésbicas como seres atípicos e estranhos, em vez de perceber que a história aqui contada gira em torno de pessoas que se definem por seus sentimentos, não por sua orientação sexual. […]

[…] afirmo que encarar Azul é a Cor Mais Quente como “uma história de lésbicas” é reduzir suas personagens às suas orientações sexuais em vez de perceber que o que vivem é universal e reflete a humanidade falha, atrapalhada e comovente de todos nós.

A reivindicação de universalidade permite à crítica de cinema (que reproduz, em geral, a apreciação de Villaça, mesmo quando não o declara explicitamente) evitar as questões sugeridas pelas críticas ao filme que assumem a perspectiva da diferença. Nesse contexto, os close-ups, que atravessam toda a obra, não podem ser entendidos como planos criados por e para uma “câmera-pau”, que para Marie-Hélène Bourcier e outras críticas não é nada sutil em sua representação dos corpos femininos. Em vez da violência pornográfica da “câmera-pau”, os close-ups seriam significativos da sensibilidade do diretor e da sutileza de sua narração, que busca ancoragem nos detalhes, nos rostos, nos humores (no duplo sentido da palavra: estados de espírito e líquidos corporais).

Com base na vontade de universalidade, é possível interpretar Azul é a cor mais quente como uma espécie de “romance existencialista” que encena o ”processo de formação do ser, tal como proferido por Sartre”; como um “retrato do romance contemporâneo”, em que cada um de nós pode encontrar vislumbres de experiências pessoais, como reflexos entrevistos no espelho; como uma história de passagem da adolescência para a idade adulta e uma jornada de descoberta.

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A contraposição entre interpretações de Azul é a cor mais quente tende a assumir a configuração de um embate entre reivindicações de universalidade e deslocamentos de perspectiva a partir da diferença (especificamente da identificação como lésbica, mas não somente nessa condição). Entender esse embate nos termos limitados da oposição entre universalismo e relativismo equivale a renunciar à compreensão efetiva de como o próprio filme inscreve a tensão que o constitui em sua tecelagem narrativa. Tanto os problemas de representação apontados pelas interpretações feministas e lésbicas quanto a pretensão de universalidade identificada por diversos apreciadores da obra devem ser reconhecidos como temas que o filme aborda, mesmo que indiretamente, em sua trama complexa, em sua duração intensa. Será preciso, portanto, analisar como Azul é a cor mais quente encena, comenta e pensa, ao mesmo tempo e de forma articulada, a universalidade de sua história de amor e a diferença radical que a torna inequivocamente singular.

Fonte: http://incinerrante.com/heteronormatividade-e-representacao-em-azul-e-cor-mais-quente/

Via: Ser-Tão/UFG (http://www.sertao.ufg.br/pages/65548)