Publicado em Étnico-Racial, Direito, Direitos Humanos & Terceiro Setor, Educação, Universidade

Racismo e aporofobia no meio acadêmico: A necessidade de respostas estruturais

Paulo Roberto Oliveira da Silva
Atos racistas e aporofóbicos em universidades destacam a superficialidade das respostas institucionais, sem abordar as raízes estruturais e culturais do preconceito.
quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

A recente repercussão de atos racistas e aporofóbicos – ou seja, a discriminação e o desprezo por pessoas em situação de vulnerabilidade social – envolvendo estudantes da PUC/SP e USP trouxe à tona discussões fundamentais sobre as respostas institucionais a comportamentos discriminatórios. Embora medidas como demissões e expulsões sejam frequentemente adotadas de forma quase automática, funcionando como respostas simbólicas de expiação do mal, elas carecem de profundidade para enfrentar a real complexidade do problema. Essas ações pontuais, ainda que relevantes, não alcançam as raízes do preconceito, que estão ancoradas em estruturas sistêmicas e culturais que perpetuam discriminações dentro do ambiente acadêmico.

As ofensas proferidas pelos alunos da PUC/SP revelam um complexo mecanismo de ressentimento social. Movidos pela frustração de não terem acessado à universidade pública de maior prestígio do país – a USP – , esses estudantes utilizam o privilégio econômico, materializado no alto custo de sua mensalidade, como instrumento de desqualificação e violência simbólica contra outros estudantes.

Além disso, os ataques direcionados a estudantes beneficiários de políticas de ação afirmativa – os “cotistas” – revelam uma percepção distorcida sobre mérito, que ignora as condições históricas de desigualdade e privilégio.

Essa hostilidade emerge como reação às mudanças nas dinâmicas de acesso historicamente estabelecidas. Os estudantes que se opõem às cotas demonstram não compreender que tais políticas não representam um “facilitismo”, mas sim um mecanismo de reparação histórica, destinado a corrigir décadas de exclusão sistemática de negros, indígenas e população de baixa renda do ambiente universitário.

Nesse contexto de discriminação estrutural, é fundamental compreender o arcabouço legal que define e criminaliza práticas racistas. O Estatuto da Igualdade Racial (lei 12.288/10) define discriminação racial como “toda distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica, que vise anular ou restringir o reconhecimento, gozo ou exercício, em igualdade de condições, de direitos humanos e liberdades fundamentais”. É sempre bom lembrar que o art. 5º da CF/88 reforça essa definição ao garantir igualdade perante a lei e proibir discriminações de qualquer natureza.

Já, a lei 7.716/89 define os crimes resultantes de preconceito de raça ou cor, estabelecendo sanções para práticas discriminatórias que impeçam ou restrinjam direitos fundamentais. Vale relembrar que, com a recente atualização trazida pela lei 14.532/23, foi inserido o art. 2º-A, que criminaliza a injúria racial, com penas de reclusão de 2 a 5 anos e multa, além de agravamento em casos de ação conjunta de duas ou mais pessoas.

Ainda, a multiplicidade de sujeitos envolvidos nos atos discriminatórios evidencia que a punição individual, embora necessária, configura uma resposta superficial. Tais manifestações são reflexo de um ambiente de socialização que naturaliza a exclusão, não apenas nos espaços acadêmicos, mas também nos ambientes corporativos e profissionais. Instituições de ensino e de trabalho reproduzem, muitas vezes sem crítica, hierarquias sociais que invisibilizam estudantes e profissionais negros e/ou de baixa renda, relegando-os a posições marginais. Sua presença configura-se mais como uma concessão do que como uma verdadeira integração, ocupando espaços periféricos nas discussões, representações e decisões institucionais.

Para além da punição individual, é imperativo que instituições acadêmicas e corporativas realizem um diagnóstico crítico sobre sua própria estrutura e se perguntem: Qual é a real representatividade de pessoas negras nos diferentes níveis hierárquicos? Nos ambientes universitários, quantos professores, pesquisadores e gestores são negros? Nos espaços empresariais, qual a proporção de negros em cargos de liderança e decisão?

Sem respostas concretas e compromissos efetivos, as medidas pontuais funcionam apenas como paliativos, reforçando a ilusão de que a simples visibilização momentânea e/ou a remoção de indivíduos específicos são capazes de resolver estruturas de opressão.

Um exemplo de resposta mais aprofundada à questão do racismo institucional é o da Escola Vera Cruz, que, apesar das críticas, optou por uma abordagem sistêmica. A escola implementou ações como formações antirracistas para educadores, revisão curricular e discussões sobre branquitude, reconhecendo que o combate ao racismo exige esforços estruturais e contínuos, e não respostas pontuais.

Foi compreendido que a verdadeira reparação não está na exclusão, mas na formação crítica e na construção coletiva de uma cultura de respeito e reconhecimento da dignidade humana.

A transformação necessária ultrapassa medidas superficiais de punição. Requer um compromisso radical com a desconstrução das estruturas de poder que silenciam e marginalizam grupos historicamente vulneráveis. É preciso construir ambientes – acadêmicos, corporativos e sociais – verdadeiramente plurais, onde a diversidade seja realmente buscada e incentivada.

A mudança demanda uma reconstrução ética permanente: manutenção e ampliação de ações afirmativas, implementação de estratégias efetivas para garantir a permanência e o sucesso acadêmico dos estudantes beneficiados por essas políticas, elaboração de currículos que incluam autoras e autores que refletem sobre o racismo, os processos de exclusão social e as contribuições de grupos historicamente marginalizados. Além disso, é fundamental criar mecanismos de representatividade nos espaços de decisão, promover a diversidade em cargos de liderança e desenvolver processos formativos que eduquem para a alteridade, incentivando a empatia e o respeito às diferenças.

Essas ações devem ser acompanhadas de investimentos em suporte psicossocial, bolsas de estudos e programas de mentoria para estudantes de grupos sub-representados, garantindo que sua integração no ambiente acadêmico e profissional não seja apenas simbólica, mas efetiva. Espaços de voz e participação ativa para essas pessoas também precisam ser assegurados, permitindo que expressem suas demandas, experiências e visões sobre as mudanças necessárias.

Por fim, o fortalecimento de fóruns e debates sobre diversidade, revisões contínuas das práticas institucionais e a criação de políticas públicas que dialoguem com as realidades locais podem consolidar ambientes mais inclusivos. O desafio é complexo e exige compromisso coletivo: desconstruir privilégios, reconhecer assimetrias históricas e construir novos horizontes de convivência baseados no respeito irrestrito à dignidade humana.

Paulo Roberto Oliveira da Silva
Especialista em Direito Público e advogado no escritório Szazi, Bechara, Storto, Reicher e Figueirêdo Lopes Advogados (SBSA Advogados)

Fonte: https://www.migalhas.com.br/depeso/421235/racismo-e-aporofobia-meio-academico-necessidade-resposta-estrutural

Publicado em Étnico-Racial, Direitos Humanos & Terceiro Setor, Movimento Social

3º Circuito da Iguadade Racial de Goiânia 2014

Prefeitura de Goiânia promove atividades em comemoração ao mês da Consciência Negra

Atualizado em 30/10/2014 18:25
Projeto é idealizado pela Secretaria Municipal de Políticas para a Promoção da Igualdade Racial

A Prefeitura de Goiânia, por meio da Secretaria Municipal de Políticas para a Promoção da Igualdade Racial (Seppir), inicia neste sábado, 1º, as atividades em comemoração ao mês da Consciência Negra. O evento entra em sua terceira edição e traz inúmeras atividades culturais e educativas, realizadas em parceria com o poder público, instituições e movimento social. A iniciativa faz parte do calendário do município e um de seus aspectos é a pluralidade de linguagens e a descentralização das atividades.

Ao longo do III Circuito acontecerão shows, seminários, debates, exposições, festival de capoeira, oficinas, entre outras. Todas as atividades estarão refletindo e discutindo as relações étnico-raciais numa perspectiva de desconstrução do racismo e, também, possibilitando a população conhecer a produção cultural negra.

A titular da Seppir, Professora Ana Rita, ressalta a importância do evento: “Elaboramos estas atividades como forma de refletir e discutir as relações étnico-raciais numa perspectiva de desconstrução do racismo e, também, possibilitar o conhecimento da produção cultural negra em nossa capital”, finaliza.

Abertura
10h = Intervenção Urbana Negritando, no Centro de Goiânia, com concentração na Praça Cívica e encerramento na Praça do Bandeirante. A perspectiva da intervenção é trazer aspectos da negritude e das africanidades para as ruas do centro de Goiânia, com performers negras e negros.

13h = Abertura III Circuito – Sábado Afro, que acontecerá no Mercado da Rua 74, com apresentação do grupo de Samba Os três Neguinhos.

Padu Prado e Graciela Sturmer, da editoria de Igualdade Racial – Secretaria Municipal de Comunicação (Secom)

Fonte: http://www.goiania.go.gov.br/portal/pagina/default.asp?pagina=noticias&s=1&tt=not&cd=4353&fn=true

20141031

Publicado em Étnico-Racial, Sociedade

Racismo inverso? Não! Respeito e justiça!

Aos que insistem em falar de “chatice do politicamente correto” ou “patrulhamento”… Estamos apenas falando de RESPEITO E JUSTIÇA!

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=crCCQIWSx68