Publicado em Feminismo, Sexualidade e LGBTT

#visibilidadetrans – Infância, negações, salto alto e cissexismo: uma conversa sobre possibilidades de corpos, uma conversa sobre visibilidade trans*

Infância, negações, salto alto e cissexismo: uma conversa sobre possibilidades de corpos, uma conversa sobre visibilidade trans*

Publicado em janeiro 29, 2014por 

Hoje, dia 29-01, é dia da visibilidade trans*, e durante toda essa semana estará acontecendo uma blogagem coletiva organizada peloTransfeminismo, juntamente com as Blogueiras FeministasBlogueiras Negras e True Love. E esse texto faz parte dessa blogagem, uma pequena contribuição para essa semana tão importante para as pessoas trans*.

Quando criança eu gostava de andar com os sapatos da minha mãe, inclusive seus chinelos, que sempre foram de cores mais claras que os meus. Eu também tinha uma curiosidade imensa em relação ao corpo da minha mãe, eu gostava de vê-la se vestindo, gostava de tocar seus sutiãs e lembro que algumas poucas vezes eu me vi diante do espelho experimentando o enorme sutiã dela.

Eu fui uma criança chamada de fresca, mimada, sensível, a criança bichinha. Eu nunca gostei de coisas consideradas masculinas, como por exemplo, praticar esportes, brincar com alguma bola na rua com outros meninos, correr, “brincar de lutinha”, etc. Não, eu nunca gostei de práticas infantis voltadas para os meninos. Eu gostava é de brincar de boneca com as minhas primas. E eu brinquei muito de boneca, brinquei demais. Eu gostava de arrumar os cabelos das bonecas, de dar vida a elas, colocar um vestido bonito, que combinasse com a história que eu e minhas primas inventávamos. Até que um dia a minha mãe descobriu o que eu tanto fazia no quarto das minhas primas: o seu filho primogênito, que ela tanto amava, brincava de boneca com as primas. Eu apanhei, não muito, mas apanhei, doeu, eu chorei e eu lembro as coisas que a minha mãe disse para o meu pai, não exatamente de tudo, mas eu me lembro de frases que remetem a normalidade, onde minha mãe questionava o meu pai sobre o porquê do filho deles não ser “normal”. Pois é mãe, eu sinto muito em te desapontar, mas normal é uma coisa que eu nunca fui e ainda bem.

Enquanto eu passava a infância brincando dentro de casa com meus brinquedos e as escondidas com as bonecas das minhas primas, outras coisas aconteceram que me marcaram profundamente. Como eu falei, eu gostava de usar os sapatos da minha mãe, os colocava e desfilava pelo quarto, desengonçada, sapatos enormes para pés pequenos, o toc toc acontecendo atrás de mim, as miradas no espelho, as mãos na cintura fazendo pose e eu tenho certeza que eu fazia tudo isso com os olhos brilhando de felicidade. Claro que eu tomava a liberdade de usar os sapatos da minha mãe quando ela não estava em casa. Eu não lembro por que, não lembro o que eu pensava disso, eu só lembro que sentia a vontade de usá-los quando ela não estava perto.

Então, um dia, talvez pelos toc toc que eu tanto fazia ao andar, fui surpreendida por uma porta se abrindo e uma mãe furiosa vindo em minha direção. Apanhei de novo, dessa vez doeu mais, foi mais forte. Depois que me bateu, ela sentou no chão encostada na parede, chorando e me perguntando por que eu estava usando os sapatos dela, eu não respondia nenhuma palavra, só chorava e chorava. Depois que meu pai chegou, eles conversaram bastante tempo e nunca mais tocaram no assunto diante de mim, os sapatos dela começaram a ficar escondidos em cima do seu guarda-roupa. Eu sabia onde eles estavam, mas eu, não sei por que, desde o dia que apanhei, nunca mais voltei a usá-los. Hoje eu penso que a dor de ter apanhado foi tão grande, a cena de ver minha mãe chorando, me questionando sobre eu estar usando seus sapatos, foi tão impactante para mim, que de alguma forma, eu entendia que usar os sapatos dela era uma coisa errada e que eu nunca mais deveria fazer isso. E eu nunca mais fiz… com os sapatos dela, claro.

No fim do ano passado, lá por novembro, eu me peguei, pela primeira vez na vida, questionando a verbalização “homem” que sempre foi direcionada para mim. Nas conversas que eu tinha com as minhas amigas, era inquietante a posição “homem gay” que me era direcionada, era como se eu não me visse mais como um “homem gay”. Depois de muito ler sobre os movimentos queer, feminista e estar começando a conhecer o transfeminismo, eu começava a questionar o meu corpo, como ele era visto, identificado pelas pessoas; eu comecei a questionar se a verbalização “homem”, que durante a vida inteira foi dirigida a mim, era uma afirmação válida e se eu realmente queria carregar essa palavra comigo. E eu percebi que eu não queria. Eu percebo que eu não quero.

Depois de muito refletir e conversar com as pessoas amigas, eu cheguei a conclusão que não, eu não era homem e que nunca tinha sido. Houve uma tentativa falha de ser um homem gay, mas ela nunca teve êxito, sempre tinha alguma coisa que impedia, que não colava, que me dava uma sensação de vazio. Eu tinha o costume de dizer para as minhas amigas que eu não gostava do “mundo gay” e acho que agora eu entendo melhor os motivos.

Ainda é muito confuso lidar com esses questionamentos que eu estou propondo para mim, por isso que eu digo que hoje eu estou passando por processos, sensações, vontades e experimentações, e que todas essas coisas eu sei que me levarão a olhar para o meu passado e a perceber que eu tive uma existência de uma pessoa trans… eu estou tendo uma existência de uma pessoa trans*, mesmo que em muitos lugares ainda esteja no “armário”. E eu vejo, não sei se estou errada, mas eu vejo que esse processo que eu estou passando, de questionamentos e negações de normatividades, é necessário, pois eu fui criada e ensinada a ser uma pessoa cisgênera [1], a nossa educação é uma educação cis.

Nós, pessoas, somos ensinadas na escola, e na vida, que existem só dois gêneros e que eles são: homem e mulher; e que existem duas orientações sexuais: heterossexual e homossexual, talvez uma terceira, a bissexual. A cisnormatividade é apresentada para nós diariamente, em todos os lugares, em todos os momentos. E eu sei que a minha mãe, quando me bateu por eu brincar de boneca, bateu por que eu estava fazendo uma coisa que meninos não deveriam fazer e que o meu corpo era lido (e ainda é) como um corpo masculino. Eu sei que a minha mãe me bateu, quando me viu usando um salto alto dela, por que usar salto alto é coisa de mulher e que eu, na leitura que ela fazia e faz de mim, eu sou um homem, o meu corpo é lido como o corpo de um homem. E isso é o cissexismo [2], a punição que eu recebia, por fazer coisas que meu suposto gênero não deveria fazer, era uma forma de me ensinar qual era o meu lugar, o lugar do meu corpo, uma forma de me ensinar a ler o meu corpo da maneira certa, ou melhor: de uma maneira cisgênera.

Mas eu também sei, que mesmo a minha mãe me vendo como homem e mesmo a sociedade inteira me considerando homem, eu sei que eu não sou. Eu sei que eu gosto de usar saia, de usar brinco, de pintar meus lábios de vermelho, de passar um lápis no olho para deixar o dia mais colorido. Eu sei que eu gosto de pintar minhas unhas e eu não vejo a hora de poder deixá-las crescer para poder batê-las em qualquer lugar e fazer “toc toc” com as unhas. Eu sei que eu ainda não posso usar roupas femininas em vários dos lugares que eu frequento, mas eu também sei que com o passar dos anos isso irá mudar e eu terei coragem de poder andar de saia, vestido, salto alto e maquiada por todos os lugares.

E é essa minha falta de coragem em usar mais roupas consideradas femininas no meu dia-a-dia que me faz pensar que quando nós falamos sobre gênero, performance, normatividade, heteronormatividade, etc., nós estamos falando de possibilidades de existência de corpos. Pois quando pessoas trans* são brutalmente desfiguradas e assassinadas, são os corpos dessas pessoas, que ousam transitar entre os gêneros, que estão incomodando; são os corpos de pessoas trans*, que se recusam a pertencer a determinado gênero e se identificam com outro, que incomodam. As pessoas trans* incomodam o cistema, a cisnormatividade por que apresentam ao mundo uma outra possibilidade de existência: uma existência trans*.

É importante que aconteça essa blogagem coletiva sobre a visibilidade trans*, é importante que textos e artigos de pessoas trans* falando sobre os seus problemas e sobre desafios que ainda se tem pela frente sejam compartilhados e lidos pelas pessoas. E eu estou fazendo a minha parte, pois eu sei que quem fala sobre visibilidade trans*, está falando sobre e, muitas vezes, por mim.

————

[1] cisgênero ou cis, segundo o Incandescência, “são as pessoas cujo gênero que afirmam é o mesmo que aquele que lhes foi designado no nascimento. São as pessoas que não são trans*. Um homem que, ao nascer, foi designado homem, e que hoje afirma ser homem, é um homem cis”.

[2] cissexismo, também segundo o Incandescência, “é um conjunto de noções que estabelecem as pessoas trans* abaixo das pessoas cis, normalmente de forma institucional. A noção de que o gênero é definido pelo corpo, de que uma mulher ou homem deve ser de uma determinada forma, de que corpos trans* são bizarros, de que existem apenas dois gêneros fixos, etc”. Também tem texto no Tranfeminismo que explica o que é.

Fonte: http://ogritodabicha.wordpress.com/2014/01/29/infancia-negacoes-salto-alto-e-cissexismo-uma-conversa-sobre-possibilidades-de-corpos-uma-conversa-sobre-visibilidade-trans/

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Autor:

Sou servidora técnica da UFG, educadora, radialista e empreendedora social. Minha missão é construir meu caminho feliz, simples e ético, e dar minha contribuição por um mundo mais acolhedor e justo a partir da inovação, trabalho e humanidades. "Paretando", 80% de humanas e 20% encantada com os números, essa abstração inquietante. Mais em michelycoutinho.com.br.

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